quarta-feira, 4 de Março de 2009

Caracteristicas dos Orixás - Exu / Pombagira

EXU
“O guardião das trevas,
nunca deixará o devedor impune,
nem de amparar quem merece.”


Pai Exu, é o guardião dos caminhos, e das encruzilhadas. Vigia as passagens, abre e fecha os caminhos. É ele quem faz a comunicação entre os seres humanos e os demais Orixás. Quando se faz alguma oferenda e pedido aos Orixás, é Exu quem transporta a oferenda (essência) e a mensagem. É essa uma das razões, porque Exu deve ser sempre ofertado primeiro que todos. Inclusive nas casas de culto, Exu e Pombagira – seu complemento feminino, são sempre saudados e oferendados antes de se iniciar qualquer ritual.
Mas além de mensageiro, é Exu quem protege os médiuns e as casas de culto, de espiritos perturbadores, para que a caridade possa ser praticada durante os rituais, e durante o atendimento.
Exu e suas falanges, são os “soldados” dos Orixás. Cada Orixá tem o seu Exu ou Pombagira correspondente, que representa o seu pólo negativo, o seu representante ou serviçal nas trevas. E como cada Orixá tem várias qualidades dependendo do seu campo de actuação, para cada qualidade diferente há um Exu ou pombagira chefe de falange correspondente, que por sua vez comanda a sua enorme falange, que se vai dividindo hierárquicamente. Costuma-se dizer que cada Exu chefe de falange, comanda sete sub-chefes, que por sua vez cada um comanda mais sete, e assim se vai multiplicando sempre por sete. Sendo os que ocupam cargos mais altos dentro da hierarquia, os mais evoluidos, com mais luz e conhecimento, normalmente
chamados de “tronados” e “coroados”, e os que se encontram mais abaixo, são os espiritos sem luz e trevosos que foram recrutados, e lhes foi dada a oportunidade de evoluirem servindo a luz nas trevas.
Os Exus actuam no baixo astral, combatendo os espiritos trevosos e demoniacos, e são os responsáveis pela estabilidade e equilibrio nas trevas, sempre sob a luz da lei e da justiça divina.
Foram infelizmente sincretizados como diabos e demónios pela igreja católica, e não só. Actualmente existem algumas igrejas que os utilizam erradamente como rótulo da maldade, e responsáveis pelos males do mundo. Esta visão errada, deve-se em parte ao facto de que quando incorporados em seus médiuns, costumam falar de jeito maroto, dançam de forma sensual, dizem piadas, bebem álcool, e aceitam muitas das suas oferendas em encruzilhadas, juntando ainda o facto de usarem as cores preto e vermelho, que lhes dá ainda um ar mais sombrio.
As pessoas que são médiuns videntes, quando os veêm, conseguem ver que usam por vezes tridentes ou outras armas astrais, uma roupagem fluidica, e uma forma grotesca e assustadora. Tudo isso para intimidar e amedrontar, os seres do baixo astral com que têm de lidar.
Ora todos estes factos e relatos, incluindo seus métodos agressivos de actuar, fizeram com que Exu fosse representado como tendo chifres, pés de bode, garras, tridentes, e tudo de maneira a parecer o mais demoniaco possivel. Mas Exu não é demónio. Exu protege os encarnados dos seres demoniacos que vivem no Umbral mais denso e negativo. Exu é o braço armado de Deus nas trevas, é o policia do astral. Por vezes, sua maneira de actuar, pode parecer demasiado ofensiva e até maldosa, mas é necessário, pois os seres demoniacos das trevas não entendem outra linguagem. A picada de um escorpião, é combatida com o seu próprio veneno...
Hoje em dia, seu simbolo mais usual é o tridente, mas em África, ainda costuma ser representado como um falo, como era inicialmente. Representando assim, o aspecto sexual que possui, associado á copula e á virilidade.
Exu tem também o poder oracular, pois como se costuma dizer:
Exu tudo sabe, tudo ouve, tudo vê, e tudo transmite. É por isso muito procurado e apreciadas suas consultas quando incorporado em seus médiuns, pois logo vai falando e tentando arranjar solução para todos os problemas. Nas lendas Iorubás, foi Exu quem trouxe aos homens o Oráculo de Ifá – os dezasseis odus com que se joga o jogo de búzios.
É costume dizer-se, que Exu tem duas cabeças, uma que olha em frente e outra que em simultâneo olha para trás. E na verdade é quase isso, pois Exu vive na dualidade.
Sabe fazer o bem, mas conhece o mal. Serve os seus interesses, mas também o interesse alheio. Caminha direito em caminhos tortos, caminha torto em caminhos tortos, só não caminha direito em caminhos direitos.
Sendo Exu um elemento neutro, só actua de duas maneiras: ou activado pela lei maior e actua como agente cármico; ou activado pela magia.
Como agente cármico, é o responsável por esgotar o cárma dos seres, actuando sempre sobre as ordens dos amados Orixás, fazendo cumprir a lei e a justiça divina. Como agente mágico, actua quando é oferendado ritualisticamente, por quem conhece os mistérios da magia, actuando sempre na neutralidade, e declinando sempre as responsabilidades em quem o activou e lhe pagou. Mas neste caso, é preciso ver que existem vários graus dentro da hierarquia dos Exus, e quanto mais elevado o grau, mais conhecimento e luz possuem. Sendo que só aceitam trabalhos de magia para prejudicar alguém, ou interferir no livre arbítrío dos seres, os Exus que têm pouco grau ou nenhum. São Exus que não têm ainda luz, e não sabem a diferença do bem e do mal. Inclusive, na maior parte das vezes nem são Exus, mas sim Kiumbas – espiritos caidos, do baixo astral, que se fazem passar por eles para se saciarem com as oferendas. Os verdadeiros Exus de lei não aceitam estes trabalhos, pois têm conhecimento e luz suficiente, para entenderem que se o fizerem, estarão a ofender a lei maior e serão castigados, despromovidos nas suas hierarquias, e atrasada sua evolução. E se por acaso, alguém tenta activá-los magisticamente para estes trabalhos, eles se viram contra quem os activou.
Infelizmente estes Kiumbas farsantes de Exu e Pombagira, conseguem muitas vezes penetrar em rituais nos terreiros de Umbanda, Candomblé e outros cultos Afro, fazendo passarem-se pelo que não são, aumentando ainda mais a má fama de nossos irmãos Exus e Pombagiras.
Estas situações acontecem frequentemente, nas casas que não têm a protecção de Exus de lei como deveriam. Ora porque o dirigente da casa, é um pai ou mãe de santo farsante e a casa não tem fundamentos nenhuns, ou os que tem estão mal feitos e sem conhecimento; ou porque a própia casa, é muito dada e ligada a magias negras, e assuntos que nada têm a ver com a caridade e evolução espiritual.
Existem lamentávelmente, alguns casos tristes de actuações destes Kiumbas, pois conseguem tão astutamente enganar as pessoas, que chegam até a pedir sexo em troca de favores. Em geral, encharcam-se em álcool, gostam de vestir-se de maneira exageradamente sensual (quase despidos), fazem gestos obscenos e usam um baixo calão. Falam quase sempre em sexo, e gostam de se exibir, provocar e humilhar os demais, chegando inclusive ao ponto de exporem em frente aos outros, a vida pessoal das pessoas que vão em busca de ajuda.
É também verdade, que por vezes é necessário um Exu ou Pombagira, falar rude com o consulente de maneira a que leve um “choque”, mas um Exu ou Pombagira de verdade, em geral, fala só e directamente com a pessoa, procurando sempre ajudá-la, não fazendo nunca com que se sinta pior do que já está. Outra verdade, é que por vezes, e em algumas casas, os verdadeiros Exus e Pombagiras, deixam que os Kiumbas penetrem, criando “armadilhas”, para depois os capturarem e encaminharem na senda da evolução, segundo a justiça divina e a lei maior. Desmantelando em seguida esses terreiros, causando problemas, doenças, ou outras causas que vão afastando os médiuns, deixando os dirigentes sós e a contas com a justiça divina.
De qualquer forma, todos os seres que vivem do mal, ou fazendo mal a outros, vão ter sempre mais cedo ou mais tarde, o retorno do que fizeram.
Convém também lembrar, e em especial aos que são médiuns ou de alguma forma estejam ligados ao espiritual, que pela lei das afinidades, só pode atrair bons fluidos e espiritos de luz, quem de facto gerar em si sentimentos virtuosos e tenha acções nobres. Pois caso contrário, más acções e sentimentos negativos, só atrairão Kiumbas, maus fluidos, e espiritos trevosos.
Os seres do baixo astral, são alimentados pelas más atitudes, maus pensamentos e sentimentos dos seres encarnados, ou desencarnados. Cada mal que practicam leva-os para niveis mais baixos, provocando ainda mais revoltas. Alguns caem tanto, que perdem a consciência humana e os seus corpos astrais, e chegam a transformarem-se em figuras grotescas e horrendas.
Em geral, considera-se que no Umbral existem sete niveis negativos, sete camadas onde vivem e se purgam os seres trevosos. Considerando-se que as ultimas duas camadas mais baixas, estão na total ausência de luz, e são habitadas por seres demoniacos que perderam na totalidade a consciência humana. São estes seres que os Exus combatem principalmente, pois vivem na maldade pura, e sempre tentando capturar para as suas hostes mais espiritos caidos, levando a humanidade para a parte negativa.
Em outro aspecto, é Exu quem irradia nos seres a vitalidade, em especial o vigor fisico e sexual. Exu pode vitalizar, isto é, aumentar ainda mais as qualidades vibradas nos seres pelos Orixás, ou desvitalizá-las conforme as necessidades e merecimento dos seres. Um Exu, tanto pode punir o ser que se desvituou e se afastou da irradiação luminosa dos Orixás, desvitalizando-o e paralisando-o, esgotando o seu cárma. Como o pode irradiar e vitalizar, enchendo-o de força, de energia e vigor, caso o ser caminhe no sentido correcto da lei divina. Sempre protegendo o ser, sem nunca interferir no seu livre-arbitrio, congratulando-se quando o seu protegido caminha no sentido da evolução, e sofrendo sempre com as suas quedas.
A actuação dos Exus, Pombagiras e os amados Orixás, englobam tudo e todos. Não só as religiões Afro-Brasileiras, mas todas as existentes no planeta, pois todas têm o seu pólo positivo e o negativo. Como é lógico, têm diferentes denominações, consoante as diferentes religiões, zonas e culturas, mas sempre de maneira a que possam desenvolver as suas missões, na realidade material e nos planos subtis.
Apenas para terminar e dar um exemplo, na cabala judaica, os Exus têm nomes que derivam do latim e das religiões pagãs. Chamando por exemplo “Astaroth” ao Exu Rei das Sete Encruzilhadas, “Hael” ao Exu da Meia-Noite, “Fleuruty” ao Exu tiriri, “Belzebu” ao Exu-Mor, e “Klepoth” á Pombagira. Em alguns paises orientais, a Pombagira Maria Padilha é conhecida por “Shinji”.



POMBAGIRA
“Quem se deixar afundar no mundo dos desejos,
e beber o veneno da luxúria dos sentidos,
tornar-se-á no seu próprio escravo.”


Pombagira ou Bombogira, é o Exu feminino, complemento do Exu masculino. Dos sete Exus chefes de legião, apenas um é feminino, dai ter ocorrido uma inversão deste conceito, dizendo que Pombagira é mulher de sete Exus, sendo por isso prostituta.
Os Exus são nosssos irmãos, e já tiveram as suas encarnações como humanos. Por isso, é perfeitamente normal que possa ocorrer, que uma ou outra, dentro das várias falanges de Pombagiras, possa ter sido prostituta em sua ultima encarnação. Agora, não se pode generalizar todas por igual, apenas porque uma foi “mulher de rua”. E nem mesmo a que tenha sido, merece que a chamem assim, pois além de ser nossa irmã, está em outro grau de evolução que nós não estamos, e trabalha em prol da humanidade. Agora, como os seres humanos são peritos em distorcer e inverter as coisas que não entendem, facilmente encontramos em algumas casas de culto aos Orixás, em dias de ritual de “esquerda”, médiuns femininas completamente vestidas como prostitutas, ás vezes quase despidas. Não porque as suas Pombagiras o tenham sido, mas sim pelo conceito errado que têm delas, e muitas vezes também, para extravasarem os seus própios desejos intimos, impressionando os menos esclarecidos com gracejos, malabarismos, convites imorais,e falando em baixo calão, aproveitando a imagem já criada.
Estes médiuns, tanto femininos como masculinos, são aquele tipo de gente que são desprovidos de qualquer qualidade nobre. São pessoas sem escrúpulos, moral ou ética e que se aproveitam da imagem distorcida de Exu e Pombagira, para exteriorizarem o seu verdadeiro “eu”. Em geral estas pessoas, acabam caindo no ridiculo, ficando desacreditadas, e segundo a lei das afinidades, acabam sendo envoltas pelos obsessores, caindo em tormento por parte destes.
É certo que Pombagira costuma demonstrar alegria, falar como uma pessoa vivida, e dançar sensualmente. Mas não devem ser confundidas as coisas, pois ela lida com a sexualidade das pessoas presentes, para as descarregar do excesso desse tipo de energia, e não para se exibir ou para ser idolatrada.
A função das Pombagiras está ligada á sensualidade, tentando direccionar as energias sexuais dos seres para a realização e a conquista de coisas nobres.
Como complemento do vigor e vitalidade irradiados por Exu, irradia o desejo nos seres. Além de irradiar o desejo sexual necessário e equilibrado, irradia também o desejo de ter uma vida melhor, de evolução, de prosperidade, de crescimento espiritual, e de todo o tipo de sentimentos virtuosos e nobres.
Como qualquer Exu, são também esgotadoras do cárma e conhecedoras da magia. Incorporadas em seus médiuns, dão consultas e “passes”, tentando sempre ajudar quem as procura. Ganharam infelizmente, a fama de roubarem maridos e mulheres, e destruirem casamentos e uniões, para quem lhes peça e lhes pague. Ora, tal e qual como já afirmei, não vale a pena repetir novamente, quem são as entidades que aceitam esse tipo de trabalhos. Pombagira conhece sim, o coração e os sentimentos dos humanos, podendo ajudar a resolver problemas conjugais e sentimentais, mas sempre sem prejudicar quem quer que seja.
Tal como os Exus, usam a cor preta e vemelha. Seu simbolo é um tridente com os garfos em curvatura. E seu dia da semana consagrado, é tal como Exu, a segunda-feira. Têm também a função de guardiões da lei cármica. E em seus trabalhos, tal como os Exus, cortam demandas, desfazem trabalhos e feitiços de magia negra, e ajudam nos descarregos e desobsessões, retirando os espiritos obsessores e trevosos, encaminhando-os para a luz, ou para onde possam cumprir suas penas em outros lugares do astral inferior.

Extrato do livro - “Orixás em poesia” de Paulo Lourenço (Ramiro de Kali) Copyright © 2008

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